segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Armas, Germes e Aço - Jared Diamond Capítulo 14, pág. 276 Em qualquer sociedade estratificada, seja ela uma tribo centralizada ou um Estado, deve-se perguntar: por que o povo tolera a transferência do fruto de seu trabalho árduo para os cleptocratas? Essa pergunta, suscitada por teóricos políticos de Platão a Marx, é novamente levantada por eleitores em todas as eleições modernas. As cleptoracias com pequeno apoio público correm o risco de ser derrubadas, ou pelo povo oprimido ou por novos-ricos destinados a substituir os cleptocratas que buscam apoio público com a promessa de uma proporção maior de serviçços prestados em relação aos frutos roubados. Por exemplo, a história havaiana foi marcada pelas revoltas contra chefes repressores, normalmente comandadas por irmãos mais jovens que prometiam menos opressão. Isso pode nos soar engraçado no contexto do antigo Havaí, até refletirmos sobre toda a miséria que ainda é causada por essas lutas no mundo moderno. O que uma elite deveria fazer para conquistar apoio popular e ao mesmo tempo manter um estilo de vida mais confortável que o do povo? Cleptocratas em todas as épocas recorreram a uma mistura de quatro soluções: 1. Desarmar o populacho e armar a elite. Isso é muito mais fácil nestes tempos de armamento de alta tecnologia, produzido somente nas fábricas e facilmente monopolizado por uma elite, do que nos tempos antigos das lanças e bastões feitos em casa. 2. Fazer a massa feliz redistribuindo boa parte do tributo recebido em coisas de apelo popular. Este princípio era válido para os chefes havaianos e ainda é válido para hoje para os políticos americanos. 3. Usar o monopólio da força para promover a felicidade, mantendo a ordem pública e contendo a violência. Isso é possivelmente uma grande vantagem subestimada das sociedades centralizadas sobre as não-centralizadas. Os antropólogos anteriormente julgavam que os bandos e as sociedades tribais eram dóceis e pacíficos, porque os antropólogos visitantes não observaram nenhum assassinato em um bando de 25 pessoas no decorrer de três anos de estudo. É claro que eles não fizeram: é fácil imaginar que um bando de uma dúzia de adultos e uma dúzia de crianças, sujeito às inevitáveis mortes causadas por razões habituais que não o assassinato, não pode se perpetuar se, além disso, um de seus poucos adultos matar outro a cada três anos. Informações muito mais extesnsivas e de longo prazo sobre os bandos e as sociedades tribais revelam que o assassinato é uma causa importante de morte. Por exemplo, eu estava visitando o povo iyau da Nova Guiné numa época em que uma antropóloga estava entrevistando as mulheres iyaus sobre suas histórias de vida. Uma depois da outra, quando solicitada a dizer o nome do marido, citava vários maridos que haviam morrido de mortes violentas. Em geral elas respondiam: "Meu primeiro marido foi morte pelos ataques dos elopis. Meu segundo marido foi morto por um homem que me queria e que se tornou meu terceiro marido. Este foi morto pelo irmão do meu segundo marido, que queria vingar a morte dele." Essas biografias são comuns entre os chamados habitantes dóceis das tribos e contribuiu para a aceitação de uma autoridade centralizada à medida que a tribo aumentava de tamanho. 4. O último mecanismo para os cleptocratas conquistarem o apoio público é elaborar uma ideologia ou uma religião que justifique a cleptocracia. Bandos e tribos já tinham crenças sobrenaturais, assim como as religiões modernas estabelecidas. Mas as crenças sobrenaturais dos bandos e das tribos não serviam para justificar a autoridade central, a transferência de riquezas, ou para manter a paz entre indivíduos que não tinham relações de parentesco. Quando as crenças sobrenaturais ganharam essas funções e foram institucionalizadas, transformaram-se nisso que hoje denominamos uma religião. Os chefes havaianos eram como quaisquer outros chefes, na afirmação da divindade, na ascendência divina ou, pelo menos, numa linha direta com os deuses. O chefe alegava servir ao povo, intercedendo por eles junto aos deuses e recitando as fórmulas rituais necessárias para obter chuva, boas colheitas e êxito na pescaria.

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